O Observatório FGS é um projeto de pesquisa tecnológica, que vem sendo desenvolvido, desde 2010, por uma parceria entre nove universidades brasileiras (UFBA, UFCA, PUC-SP, UDESC, UFTO, EACH-USP, UFRB, PUC-MG), articuladas no âmbito da Rede de Pesquisadores em Gestão Social (RGS), cujo objetivo é contribuir para a discussão, consolidação e expansão da gestão social e das suas propostas de formação, por meio de pesquisas de base e pesquisas aplicadas. Este projeto contou com o apoio da FAPESB e CNPq entre os anos 2011 e 2014.
Para conhecer melhor a formação em gestão social no país, visite o projeto do mapeamento que se encontra no EIXO ENSINO-APRENDIZAGEM.
O campo da gestão social, além de caracterizar-se por sua natureza interdisciplinar e fronteiras em movimento, também se caracteriza por ter, quase que desde o início, produzido propostas de formação em gestão social, ou seja, nele mesmo. É uma experiência mais próxima de um learning by teachingdo que propriamente de um learning by doing, pois os cursos que foram surgindo também ajudavam a modelar o próprio campo. Com Paula Schommer, chegamos a propor uma modelização do desenvolvimento da gestão social, sugerindo que este, ao oferecer alternativas de formação nele mesmo, teria se transformado de um processo de inovação a um produto inovador (BOULLOSA; SCHOMMER, 2008, 2009). Tal passagem teria se dado precocemente (ib.).
Passado alguns anos, em 2014, parece que as experiências de formação em gestão social conseguiram superar os riscos de tal transformação, quando pensávamos que esta poderia implicar em dificuldades de avanço do próprio campo. Pelo contrário, parece que tais experiências foram e continuam sendo muito importantes para o campo, pois o ajudaram a modelar e ao mesmo tempo foram por ele modeladas. O mesmo raciocínio vale para os Encontros Nacionais de Pesquisadores em Gestão Social, editados anualmente desde 2007. A forte correlação percebida parece indicar que a natureza da inovação trazida pela gestão social pode se aproximar de uma abordagem mais pragmaticista do fazer ciência. Uma abordagem que admite o caminho da abdução pierciana na construção da sua inferência principal de pesquisa, na definição de seus materiais de pesquisa ao incluir a experiência dentre estes, na problematização do público que infere, bem como na busca de produzir conhecimento útil à ação.
O quadro da oferta de formação em gestão social está em constante movimento. Para começar, conta com três propostas de graduação: uma na Universidade Federal da Bahia, a primeira do país, desenhada e implementada como graduação tecnológica e, portanto, com viés profissionalizante; uma segunda na Universidade Federal do Rio Grande do Sul; e, por fim, uma terceira, na Universidade Federal do Cariri, implementada em 2012.
Dentre as três experiências de graduação, a UFBA se destaca por ser a mais antiga, mas também por ser aquela que assume mais de frente na titulação oferecida o desafio de precisar quem é o gestor social, reforçado ainda mais por ser oferecido na modalidade de graduação tecnológica ou simplesmente curso superior de tecnologia (CST). Seu projeto político pedagógico descreve o perfil do egresso da sua graduação como um tecnólogo em gestão pública e gestão social, o que, supõe-se aqui, materializaria a descrição do profissional gestor social. Vale a pena ler sua descrição pela importância que a mesma teve no campo e na definição/criação de outras experiências formativas, nos níveis de extensão universitária, graduação e pós-graduação. Segundo o projeto do curso, o tecnólogo em gestão pública e gestão social é um profissional:
(...) capaz de pensar e/ou selecionar tecnologias apropriadas para a gestão de instituições governamentais e sociais em nível local e regional; atuando como um mediador eticamente determinado e estrategicamente orientado à promoção do desenvolvimento de indivíduos, grupos e coletividades, bem como elaborando e empreendendo programas e projetos voltados ao desenvolvimento socioterritorial (CIAGS/UFBA, 2008, p. 1).
Não importante sua importância, este curso, todavia, encontra-se em processo de profundas alterações. Há um desejo de transformá-lo em curso de bacharelado e de adequá-lo ao catálogo de cursos do Ministério da Educação, transformando-o somente em um curso (de bacharelado) em gestão pública. O problema da inclusão no catálogo de cursos do MEC acaba criando uma duplicidade de nomes para os cursos, pois todas precisam recorrer a interlocução oficial com o campo disciplinar da administração pública para terem seus projetos institucionalmente aprovados, ainda que seus currículos revelem suas claras intenções em gestão social.
A oferta formativa em cursos de pós-graduação em equivale gestão social no país é um pouco mais ampla do que a da graduação, provavelmente pela maior atratividade que estes cursos exercem sobre o público maior. Há cursos de mestrado profissional, especializações lato senso, nas modalidades presencial e à distância.
São três os cursos de mestrado em funcionamento no país – todos profissionalizantes. É particularmente curioso a oferta de cursos profissionalizantes sobre um oficio, o de gestor social, que ainda carece de definição mais precisa na literatura. De fato, as três propostas são bem diferentes, com diferentes conteúdos e equilíbrios estes. Todos possuem trabalho de conclusão. O mestrado oferecido pela UFBA, em funcionamento deste 2006, é o mais antigo e o único gratuito. O mestrado da Universidade do vale do Cricaré (UNIVC) é o mais recente implementado.
A avaliação dos mestrado profissionais é realizada pela CAPES, que estabelece seus critérios e estipula uma nota síntese entre 1 e 5. Os três mestrados em gestão social no país apresentam uma boa nota. Dois deles são 4, UFBA e UNA, enquanto que o da UNIVC, recém implementado (2012) é 3.
Há ainda os cursos de pós-graduação lato-sensu, em nível de especialização, com uma certa difusão no país, sobretudo se incluirmos os cursos à distância, com pouca regularidade na oferta e com pouco vínculo com atividades de pesquisa e/ou extensão. Alguns destes cursos, como são os casos da UFBA e UFC, acabaram por suspender, pelo menos até o momento, suas atividades.
Sobre os cursos de especialização em gestão social na modalidade à distância, são muitos os casos que aparecem e encerram suas atividades em poucos anos, com muito pouca regularidade na oferta e sem vínculo com atividades de pesquisa e/ou extensão. Dentre os atualmente ativos, alguns exemplos:
8. Especialização em Gestão Social: Políticas Públicas, Redes e Defesa de Direitos, pela ENIAC Educação Básica e Superior (SP);
9. Especialização em Administração Pública e Gestão Social, pela Unijuí (RS);
10. Especialização em Gestão Social e Políticas Públicas, pela Faculdade Energia de Administração e Negócios – FEAN (SC);
11. Especialização em Gestão Social de Políticas Públicas, pela Universidade do Oeste de Santa Catarina – Unoesc (SC)
12. Especialização Em Gestão Social: Políticas Públicas, Redes e Defesa de Direitos, pela Unopar (SP)
Além destes cursos que oferecem formação específica em gestão social, são cada vez mais frequentes cursos de graduação em universidades e centros universitários públicos e privados, que ajudam a ilustrar a crescente capilaridade da oferta avulsa de disciplinas de gestão social no país e evidenciam a tendência à transformação de tais disciplinas em trilhas curriculares, que podem vir a dar origem a novos cursos específicos de gestão social (ARAÚJO, 2010). Os curso de serviço social e administração são os que mais incorporam disciplinas de gestão social, no nível de graduação.
Além disto, são muitos os programas que passaram a aceitar trabalhos de conclusão em ou sobre gestão social. As graduações em administração e gestão social já aceitam com uma certa frequência. Na pós-graduação stricto senso são relevantes os casos do mestrado e doutorado em serviços social oferecidos pela PUC-SP e do doutorado em administração na Universidade Federal de lavras (MG).
Para concluir este breve panorama, há hoje inúmeros cursos de extensão universitária no país em gestão social. Estes cursos são oferecidos sem regularidade, quase nunca gratuitamente e por diferentes instituições de ensino. Não há tampouco um conjunto mínimo de conteúdos ou carga horária. Um bom exemplo é o curso de extensão universitária Gestão Social e Trabalho Comunitário oferecido pelo SENAC-SP, com carga horária de 70 horas.